Em 1948, a construção do Maracanã levantou polêmicas parecidas com as de hoje em dia

Pelo Campeonato Carioca de 1950, Botafogo e Fluminense realizaram o primeiro jogo oficial no Maracanã. Foto: Arquivo Jornal O Globo
Pelo Campeonato Carioca de 1950, Botafogo e Fluminense realizaram o primeiro jogo oficial no Maracanã. Foto: Arquivo Jornal O Globo

O Maracanã é muito mais que um estádio de futebol ou um ponto turístico. A começar pelo ano de 1950, quando foi inaugurado, até o presente momento, é um dos grandes responsáveis por alçar o Rio de Janeiro ao posto de um dos destinos turísticos mais famosos do mundo. É uma história rica em acontecimentos importantes para o país, para o futebol, para a música e para muitos outros assuntos, que começou com uma Copa do Mundo, passou por várias modificações até chegar outro Mundial, responsável por promover a mais profunda reforma e dividir opiniões.

História do Maracanã

É impossível abordar a história do Maracanã sem antes falar do jornalista pernambucano Mário Rodrigues Filho, que dá nome ao estádio e é irmão de outro importante cronista, Nelson Rodrigues. A homenagem se justifica pela postura de Mário à época, favorável à construção quando o assunto ganhava a discussão em redações de jornais, em reuniões de autoridades e em bate-papos informais da sociedade civil. Antes do batismo oficial, já corria pela cidade a expressão “estádio do Maracanã”, já que o local escolhido para a construção fica próximo ao ‘Rio Maracanã’, preservado até os dias atuais.

Do outro lado dessa “guerra”, havia o deputado federal Carlos Lacerda, inimigo político do general Ângelo Mendes de Morais, prefeito do Rio de Janeiro em 1950. Lacerda argumentava que a cidade possuía outras prioridades para investimentos e que a área escolhida, no bairro da Tijuca próximo ao centro da cidade, não era a ideal. O deputado defendia que o estádio fosse menor ao proposto e que fosse erguido em Jacarepaguá. Vários projetos entraram para a disputa e o vencedor foi o representado pelo engenheiro Miguel Feldman, que entre outros aspectos, dava conta de um estádio para 155.250 lugares, dos quais 93 mil com assento, 31 mil para pessoas em pé, 30 mil cadeiras cativas, 500 para a tribuna de honra e 250 para camarotes.

É sabido que as obras se iniciaram no ano de 1948, mas existe um eterno debate entre historiadores e pesquisadores sobre o lançamento da pedra fundamental. Uns afirmam que foi em 2 de agosto, data oficial do início da construção. Outros, no entanto, defendem que houve uma cerimônia no dia 20 de janeiro, data de São Sebastião, padroeiro da cidade, que marcou o lançamento da pedra fundamental. É fato que aconteceu a tal cerimônia, mas não há qualquer documento oficial que faça alguma ligação do evento com a obra do estádio. Na época, a imprensa anunciou, em 1º de agosto, que a pedra fundamental seria lançada no dia seguinte.

As obras começaram a todo vapor, mas em vários momentos foram paralisadas por greve de operários, que viviam em pé de guerra com o governo e com as construtoras sobre pagamentos e horas de trabalho. Parece que existe um filme que vive se repetindo, e talvez seja realmente o caso, não apenas no Rio de Janeiro, mas no Brasil. Um amistoso entre as seleções carioca e paulista, realizado em junho de 1950, marcou a inauguração oficial do estádio. Mas não apenas nesse jogo, mas durante a Copa do mesmo ano, era possível observar andaimes, entulhos e materiais de construção para todos os lados. O estádio só ficou pronto mesmo em 1965, 17 anos após o início das obras.

Acontecimentos Importantes

Banda Guns N' Roses toca no Rock in Rio 2001, um dos principais eventos fora do esporte realizados no Maracanã. Foto: Leonardo Aversa / O Globo
Banda Guns N’ Roses toca no Rock in Rio 2001, um dos principais eventos fora do esporte realizados no Maracanã. Foto: Leonardo Aversa / O Globo

Construído para essa finalidade, o primeiro grande evento que o estádio Jornalista Mário Filho recebeu foi a Copa do Mundo de 1950, vencida pelo Uruguai em final contra o Brasil. Mas antes da decisão, aconteceram outras sete partidas do torneio no estádio. Brasil 4 a 0 no México; Inglaterra 2 a 0 no Chile; Espanha 2 a 0 no Chile; Brasil 2 a 0 na Iugoslávia; Espanha 1 a 0 na Inglaterra; Brasil 7 a 1 na Suécia; Brasil 6 a 1 na Espanha e a final, que perdemos para os uruguaios por 2 a 1.

De forma imediata, até pelo fator neutralidade já que nunca pertenceu a nenhum clube, o Maraca tornou-se o principal palco do futebol carioca. Sediou todas as finais da Copa Rio, inúmeras decisões históricas dos campeonatos do Rio de Janeiro e da Guanabara, depois vieram as competições nacionais e internacionais. Além disso, abrigou partidas memoráveis de grandes times formados pelos clubes cariocas, como o esquadrão do Vasco nos anos 50, apelidado de Expresso da Vitória, o glorioso Botafogo de Garrincha na década de 60, o super time do Fluminense conhecido como a Máquina Tricolor nos anos 70, a geração de ouro da Gávea, que levou o Flamengo a conquistar todos os troféus que disputou na década de 80.

Também ganhou mais importância para o país e para o mundo, a medida que recebia jogos da Seleção Brasileira que, aos poucos, foi superando o trauma de 50 e adotando o estádio como sua casa. Ganhou espaço nobre na história do Santos Futebol Clube de Pelé, nos anos 60, por receber partidas importantes do clube como finais da Libertadores e da Copa Intercontinental, juntando torcedores que vinham do litoral paulista com os do Rio de Janeiro para apoiar e comemorar as conquistas do Peixe. 

Após todas essas décadas de momentos inesquecíveis para o futebol, o Maracanã voltou a ser alvo de polêmicas. Em 1999, foi fechado para a sua primeira grande reforma, visando a realização do Mundial de Clubes da FIFA, que exigia a instalação de assentos no anel superior. Com o cumprimento da norma, a capacidade do estádio foi reduzida para 103.222 torcedores, perdendo, portanto,  o posto de Maior do Mundo para o Azteca, no México. A segunda maior reforma, que acabou sendo maior que a primeira, aconteceu cinco anos depois. O estádio ficou fechado de abril de 2005 até janeiro de 2006 para obras visando o Pan do Rio. Os custos das operações novamente foram motivos de queixas da sociedade civil, a exemplo do ocorrido em 1948 e em 2013.

Além do futebol, o estádio também já foi palco de importantes momentos em outros esportes, como a luta entre o japonês Masahiko Kimura em 1951, campeão mundial de judô, e Hélio Gracie, o maior nome do jiu-jitsu e da luta livre no Brasil; a apresentação, em 1952, da equipe estadunidense de basquetebol Harlem Globetrotters e a histórica partida de vôlei entre Brasil e União Soviética, em 1983, que detém até hoje o recorde de público numa partida a céu aberto: 95.887 pagantes.

Fora do esporte, o Maracanã também já recebeu inúmeros eventos que entraram para a história como as missas campais do Papa João Paulo II em 1980 e em 1997; os shows de Frank Sinatra em 80, do Kiss em 83, de Sting em 87, de Tina Turner em 88 (recorde de público pagante em um show musical: mais de 188 mil pessoas), da apresentadora e cantora Xuxa, também em 88, do ex-Beatle Paul McCartney em 90, do Rock in Rio em 1991, da chegada oficial do Papai Noel, da apresentação de Madonna em 93, do Hollywood Rock em 95, dos Backstreet Boys em 2001, da gravação do disco gospel “Brasil: Diante do Trono”, da dupla Sandy e Júnor em 2002 que marcou o show de artista(s) nacional(ais) que teve o maior público no estádio (70 mil pessoas), do show dos canadenses do Rush, no mesmo ano, dos mexicanos do RBD em 2006, de Ivete Sangalo no mesmo ano, do The Police em 2007, da volta da Madonna ao estádio em 2008 e do último show musical no Maracanã, que aconteceu em 2009 em comemoração aos 50 anos de carreira do cantor Roberto Carlos. 

Reforma para Copa de 2014

Após a terceira reforma, que foi a maior de todas, o Maracanã recebeu a Copa das Confederações. Foto: maracanario2014.com
Após a terceira reforma, que foi a maior de todas, o Maracanã recebeu a Copa das Confederações 2013. Foto: maracanario2014.com

Estádio da final e da cerimônia de encerramento da segunda Copa do Mundo a ser realizada no Brasil, o Maracanã passou pela terceira grande reforma da sua história. Com a demolição da cobertura original, de concreto, foi instalada uma nova membrana tensionada, que cobre 95% dos assentos. Além disso, o tom acinzentado voltou a ser a principal cor externa do estádio, que à noite, em dias de jogos, ganha outros tons graças a sua nova iluminação especial. No lado interno, agora há apenas um único nível de assentos, em substituição aos dois anéis originais. As novas cadeiras ganharam um novo padrão de cores, com o amarelo, o azul e o branco distribuídos quase aleatoriamente em setores mesclados fazendo alusão a bandeira do Brasil.

Pela primeira vez, o estádio deixou de ser administrado pelo poder público. Em concessão organizada pelo atual governador do estado, Sergio Cabral, um pool de empresas liderados pela construtora Odebrecht, e que conta com a participação do empresário Eike Batista, venceu a concorrência pela administração daquele que se convencionou chamar de Novo Maracanã.

Algumas polêmicas acompanharam e ainda acompanham todo esse processo licitatório. A primeira foi a proibição por parte do governador da participação dos clubes na concorrência (Flamengo e Fluminense chegaram a estudar a participação conjunta antes do veto). A segunda foi a ameaça da demolição do parque aquático Júlio Delamare, do estádio de atletismo Célio de Barros, do Museu do Índio e da Escola Municipal Friedenreich, todas construções localizadas no entorno do estádio e de importância esportiva, cultural e educacional para a cidade. A terceira diz respeito a própria licitação, já que a quantia paga pela concessionária Maracanã S/A está extremamente abaixo do que foi custeado pelo governo.

Recentemente, torcida e diretoria do Flamengo se manifestaram contrários a nova administração do estádio, já que nos jogos do time realizados no local foi constatada uma operação financeiramente deficitária para os cofres do clube. Mas nesta sexta-feira (13/09), foi anunciado um acordo entre o Rubro-negro e a concessionária para partidas até o fim de 2013 com novos termos contratuais. Fluminense e Botafogo já assinaram parcerias mais duradouras e o Vasco, por enquanto, joga no estádio apenas na condição de visitante em clássicos estaduais.

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